Flertar, se apaixonar, passar o dia pensando na pessoa amada, namorar, brigar, fazer as pazes, querer esticar o domingo inteiro na preguiça ao lado de quem se ama... Para um casal hétero, tudo isso não passa de um dia qualquer. Mas a gente sabe que, para a comunidade LGBTQIAPN+, a conta nunca foi simples assim!
Um toque de mãos, um abraço no meio da rua ou um carinho em público sempre carregaram um peso desproporcional. Podem ser perigosos. Podem custar uma vida... E mesmo quando o amor vence o preconceito, fica faltando o básico: o direito de viver essa relação com a mais absoluta e deliciosa banalidade.
Na televisão, essa virada de chave demorou a engrenar. Lá em 1988, Cecília (Lala Deheinzelin) e Laís (Cristina Prochaska) já marcavam terreno em "Vale Tudo". Dez anos depois, em "Torre de Babel", Leila (Silvia Pfeifer) e Rafaela (Christiane Torloni) entraram para a história como um dos primeiros casais lésbicos assumidos do horário nobre.
O desfecho, porém, veio no tom trágico da época: Leila morreu na explosão do shopping e, sufocado pela rejeição do público, o autor Sílvio de Abreu decidiu mandar Rafaela pelo mesmo caminho. A esperança daquele amor morreu junto, infelizmente.
O tempo passou. Vieram Teresa e Estela em "Babilônia"; Clara e Marina em "Em Família"; Jenifer e Eleonora em "Senhora do Destino"; Clara e Helena em "Vai na Fé"... Até que, no ano passado, Lorena e Juquinha surgiram em "Três Graças" com algo que parecia óbvio e talvez por isso tenha dado um nó tão gostoso na cabeça de todo mundo: elas eram simplesmente um casal. Ponto.
Foi vendo essa naturalidade na tela que a atriz e diretora Ana Boeckel resolveu olhar pelo retrovisor. Ela acaba de lançar o documentário independente "Loquinha: Amor que Vira Memória", reunindo o depoimento de 15 mulheres - de vários cantos do Brasil e do exterior - para registrar como as personagens de Alanis Guillen e Gabriela Medvedovsky atravessaram a vida real de cada uma.
E, minha gente, são relatos daqueles de arrepiarem, que mostram como uma novela pode facilmente pular da tela direto para o coração de quem assiste!
Entre os momentos mais marcantes, está uma mulher que passou por uma dor quase idêntica à de Lorena ao ser expulsa de casa na trama. A diferença é que, logo depois de a cena ir ao ar, o telefone dela tocou: era a própria mãe do outro lado da linha. Ali não era mais ficção. Era a vida de alguém sendo curada em tempo real.
“Passou pela minha cabeça que este depoimento era exatamente a razão de fazer este documentário. É uma parte muito emocionante para mim", refletiu Ana. Com o peito aberto e um perfil nas redes, a diretora começou a convocar depoimentos sem ter a menor ideia de onde aquela ideia iria dar. Chegou uma enxurrada de histórias. No corte final, 15 mulheres deram cara e voz ao projeto.
“Eu e a Bia Vecchi, minha editora, comentamos durante a edição que tudo parecia se encaixar: foram muitas meninas interessadas mas acabamos com estas 15 meninas por uma questão de tempo e logística, mas eu não sabia o que cada uma iria dizer. E os depoimentos pareciam se complementar de uma forma tão bacana, cada uma condensou bem o sentimento que este casal trouxe. Foi muito gratificante ver esta junção casar tão bem sem combinar nada", contou ela.
Cria de uma família de artistas, Ana cresceu sabendo do poder avassalador que o folhetim tem de pautar a mesa de jantar das famílias brasileiras. Por isso mesmo, ver duas mulheres se amando em cena sem que a orientação sexual fosse tratada como um grande drama ou castigo tem um peso enorme:
“Eu acho que a televisão aberta sempre teve e segue tendo um alcance inimaginável. Eu cresci numa família de artistas e cresci vendo o debate chegando dentro das casas das pessoas através das novelas, e eu acho que isso sempre vai ser muito valioso, então me fazia falta ver histórias que dialogassem diretamente comigo e com minha história, por isso Loquinha foi tão fundamental".
A grande virada, segundo a diretora, esteve no afeto e na delicadeza do texto. "Parece que com Louquinha foi tudo muito natural, sem que tenha existido uma resistência por ser um casal de duas mulheres. Acredito que a mentalidade do público também tenha mudado um pouco, eu espero", opinou.
E aí é que está o grande segredo de Loquinha! Ninguém precisou transformar Lorena e Juquinha em uma palestra pedagógica sobre o que é ser lésbica. Elas podiam simplesmente se amar. Podiam discutir por bobeira, sentir ciúme, cuidar uma da outra, ter problemas do cotidiano que não tinham absolutamente nada a ver com o fato de serem duas mulheres. Podiam, vejam só, apenas viver!
Em um outro momento do papo, Ana resgata uma palavra perfeita para descrever a rotina das personagens: banalidade. Afinal, para a comunidade LGBTQIAPN+, o maior sonho ainda é poder desfrutar daquilo que a maioria das pessoas nem percebe que é um privilégio.
“Tem uma frase que diz que “o sonho de todo LGBT+ é viver a banalidade do cotidiano”, e pra mim, banalidade é sobre tudo aquilo que nos é negado enquanto minorias. É o almoço na casa da sogra, é o café da tarde, uma manhã ao lado do nosso parceiro ou parceira e até mesmo as inevitáveis discussões da rotina. Lorena e Juquinha trouxeram todas estas camadas de relação que até então eram desconhecidas nos relacionamentos de duas mulheres na televisão aberta, e isso é muito valioso", analisou.
Antes de assumir a direção do documentário, Ana já tinha sentido na pele o que é viver um amor entre mulheres na ficção. Como atriz, ela protagonizou o curta Azul, de Luiza Pinheiro, interpretando Celine, uma cantora de funeral que ganha a chance de reencontrar a namorada falecida por apenas um dia. Desta vez, o papel foi sair da frente do refletor e se colocar no lugar de quem escuta:
“Estou sempre prezando pela verdade e pelo que me atravessa. Enquanto atriz eu desejo contar histórias que me movem e que possam mover principalmente quem assiste, e o que me encanta na direção é justamente poder provocar este olhar no espectador, o de emocionar e atravessar com histórias de verdade, como Loquinha fez comigo e com tantas meninas. Eu acredito profundamente nisso"
O fenômeno, aliás, provou que o público não queria se despedir quando "Três Graças" chegou ao fim. A história migrou para as redes sociais em um spin-off vertical próprio, somando 25 episódios que deram vazão a tudo o que o público estava sentindo.
Os números impressionam: somando a campanha, os episódios e os cortes traduzidos para inglês e espanhol, o projeto ultrapassou a marca de 234 milhões de visualizações e 14 milhões de interações. A novela acabou na TV, mas no mundo real continuou mais viva do que nunca.
A grande beleza desse registro está no futuro. Ana não quer que o casal seja lembrado apenas como uma exceção que deu certo. O desejo é que, com o tempo, o barulho em torno dessa história pareça até um pouco exagerado - não por falta de mérito, mas porque ver dois corpos dissidentes se amando na TV virou finalmente o padrão.
Quando questionada sobre o que espera que sobre disso tudo daqui a 10, 20 ou 30 anos, ela solta uma risada franca antes de responder:
“Caramba, que pergunta legal e difícil, hahahaha! Eu gostaria que ficasse esta sensação de pertencimento que Louquinha trouxe, de ter unido meninas jovens e de todas as idades a algo tão mágico, porque foi. Mas principalmente, eu desejo que a gente possa olhar para esta história como um marco, que daqui a 10, 20, 30 anos, a gente perca a conta de quantas outras boas e representativas histórias vieram depois delas".
E não existe final mais bonito para Lorena e Juquinha do que esse. Que elas não fiquem presas ao posto eterno de "o casal que mudou a história", mas que sejam lembradas como as primeiras de uma fila interminável de mulheres que se apaixonaram na TV... sem morrer no meio do caminho, sem sofrer só por existir. Apenas vivendo.
"Loquinha: Amor que Vira Memória" pode ser visto completo no canal @AnaBoeckel no YouTube.